Amando muito, viveremos um pouco mais após a morte. Posso dizer com segurança que a minha mãe ou o meu pai vivem em mim, que a metade das coisas que eu faço são “suas”, embora as suas mãos hoje estejam reduzidas a pó. Os grandes escritores continuam vivendo em cada um de nós cada vez que os lemos. Enquanto Beethoven roda no meu gira-discos, quem negaria que ele vive na sua música e em mim?

É como nos transplantes: o morto que doa o seu coração ou os seus rins, continua batendo e purificando o sangue no transplantado. Isto é: continua vivendo em alguém. Todo o acto de amor, toda a obra bem feita e perdurável é transplante de alma cedido a um desconhecido que vive dele e com ele.

(José Luis Martin Descalzo)