Quanto mais acreditamos que Deus fere apenas para curar, menos podemos acreditar que sirva de alguma coisa rogar-Lhe brandura. Um homem cruel podia ser comprado, podia cansar-se de tão vil prazer, podia ter um ataque temporário de piedade, como os alcoólicos têm ataques de sobriedade. Mas suponhamos que estamos perante um cirurgião cujas intenções são as melhores possíveis. Quanto mais bondoso e consciencioso for, tanto mais inexoravelmente continuará a cortar. Se ele cedesse aos nossos rogos, se parasse antes de a operação estar acabada, toda a dor sofrida até esse ponto teria sido inútil. Mas será crível que tais extremos de tortura nos sejam necessários? Bem, a escolha é nossa. As torturas acontecem. Se são desnecessárias, então Deus não existe ou é um Deus cruel. Se existe um Deus de bondade, então essas torturas são necessárias. Porque nenhum Ser, ainda que moderadamente bom, poderia de modo algum infligi-las ou permiti-las se o não fossem.
Seja como for, é o nosso quinhão. Que pretendem as pessoas dizer quando afirmam “Não tenho medo de Deus porque sei que Ele é bom” ? Será que nunca foram sequer ao dentista?
(C. S. Lewis, in A dor)

Estarei eu, por exemplo, a desviar­-me subrepticiamente para o lado de Deus por saber que, se