Sofrimento

Sofrimento e dor: frases e pensamentos em Pensamentos na Aldeia. Não se passa pela vida sem se sofrer, mas fugimos da dor porque ela nos incomoda e perturba muito. No entanto, sendo ela inevitável, será melhor termos uma boa relação com ela, encontrar-lhe um sentido. Assim, será aliada no nosso amadurecimento, e poderemos ver coisas que quem nunca sofreu ainda não conhece.


Encontrei, entre os que sofrem, homens grandes

Mas eu já vi os cegos rirem.
Encontrei, entre os que sofrem, homens grandes. Os maiores de todos.
Vi aqueles que fizeram da sua dor os poemas que lemos na escola. E os outros, que no sofrimento do exílio compuseram as sinfonias grandiosas que ficaram para sempre.
Inclinei-me perante esses que souberam aceitar a sua pequenez diante do Deus Criador, ou da sábia natureza – conforme o olhar de cada um – e por esse caminho encontraram a maneira de alcançar a grandeza.
(Paulo Geraldo)

Rejeitar as nossas experiências

Rejeitar as nossas experiências é impedir o nosso desenvolvimento. Negar as nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios da nossa vida. Não é menos do que uma negação da Alma. Pois, tal como o corpo absorve todo o género de coisas, tanto as coisas vulgares e sujas, como aquelas que o sacerdote ou uma visão purificaram, e as converte em velocidade ou força, no jogo dos músculos poderosos e na modelação da carne fresca, nas curvas e nas cores do cabelo, dos lábios, dos olhos, assim também a Alma tem, por sua vez, as suas funções nutritivas, e pode transformar em nobres movimentos de pensamento, e em paixões de grande fulgor, aquilo que é, em si mesmo, inferior, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas coisas os seus mais augustos modos de afirmação, e pode, muitas vezes, revelar-se de um modo mais perfeito através daquilo que fora feito para profanar e para destruir.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

O lado iluminado do jardim,

Lembro-me, quando estava em Oxford, de dizer a um dos meus amigos – enquanto passeávamos pelas estreitas ruas cheias de pássaros de Magdalen, no mês de Junho anterior à minha licenciatura – que queria comer os frutos de todas as árvores do mundo, e que ia partir para o mundo com essa paixão na alma. E assim parti, de facto, e assim vivi. O meu único erro foi confinar-me exclusivamente às árvores daquele que me parecia ser o lado iluminado do jardim, e rejeitar o outro lado, por causa da sua sombra e obscuridade. Fracasso, desgraça, pobreza, dor, desespero, sofrimento, lágrimas mesmo, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios da mágoa, os remorsos que fazem andar sobre espinhos, a consciência que condena, a auto-humilhação que castiga, a miséria que cobre a cabeça de cinzas, a angústia que escolhe a bebida – tudo isto eram coisas que eu temia. E, tendo decidido não conhecer nada acerca delas, fui forçado a provar cada uma delas por sua vez, a alimentar-me delas, a não ter, durante um certo período, nenhum outro alimento.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

Para acordar um mundo surdo

Deus segreda-nos nos nossos prazeres, fala connosco na nossa consciência, mas grita-nos nas nossas dores: são o Seu megafone para acordar um mundo surdo.
(C. S. Lewis)

A Dor é para a Alma bela

Agora, parece-me que a única explicação possível para a extraordinária quantidade de sofrimento que há no mundo é o amor, qualquer que ele seja. Não sou capaz de conceber outra explicação. Estou convencido de que não há nenhuma outra, e de que, se os mundos foram de facto, como eu disse, construídos pela Dor, foram-no pelas mãos do Amor, pois a Alma do homem, para quem foram construídos os mundos, não poderia, de nenhuma outra maneira, atingir a inteira estatura da sua perfeição. O Prazer é para o corpo belo, mas a Dor é para a Alma bela.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

O segredo da vida é o sofrimento

Não há um único homem miserável, neste lugar miserável onde eu também me encontro, que não tenha relações simbólicas com o próprio segredo da vida. Pois o segredo da vida é o sofrimento. É isso que está escondido por trás de tudo. Quando começamos a viver, o que é doce é tão doce para nós, e aquilo que é amargo, tão amargo, que dirigimos, inevitavelmente, todos os nossos desejos para o prazer, e procuramos, não apenas “durante um mês ou dois alimentar-nos de mel”, mas não experimentar, durante toda a nossa vida, nenhum outro alimento, ignorando entretanto que podemos estar a fazer com que a alma morra de fome.
(Oscar Wilde, in De Profundis)