Espremer as mãos num desespero impotente

Enquanto durante o primeiro ano que passei na prisão, nada mais fiz, e lembro-me de não ter feito mais nada senão espremer as mãos num desespero impotente e dizer “Que fim! que horrível fim!”, agora procuro dizer a mim próprio, e às vezes, quando não estou a torturar-me, consigo realmente dizer-mo com sinceridade: “Que começo! que maravilhoso começo!”
(Oscar Wilde, in De Profundis)

Negar as nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios

Rejeitar as nossas experiências é impedir o nosso desenvolvimento. Negar as nossas experiências é pôr uma mentira nos lábios da nossa vida. Não é menos do que uma negação da Alma. Pois, tal como o corpo absorve todo o género de coisas, tanto as coisas vulgares e sujas, como aquelas que o sacerdote ou uma visão purificaram, e as converte em velocidade ou força, no jogo dos músculos poderosos e na modelação da carne fresca, nas curvas e nas cores do cabelo, dos lábios, dos olhos, assim também a Alma tem, por sua vez, as suas funções nutritivas, e pode transformar em nobres movimentos de pensamento, e em paixões de grande fulgor, aquilo que é, em si mesmo, inferior, cruel e degradante; mais ainda, pode encontrar nestas coisas os seus mais augustos modos de afirmação, e pode, muitas vezes, revelar-se de um modo mais perfeito através daquilo que fora feito para profanar e para destruir.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

O lado iluminado do jardim

Lembro-me, quando estava em Oxford, de dizer a um dos meus amigos – enquanto passeávamos pelas estreitas ruas cheias de pássaros de Magdalen, no mês de Junho anterior à minha licenciatura – que queria comer os frutos de todas as árvores do mundo, e que ia partir para o mundo com essa paixão na alma. E assim parti, de facto, e assim vivi. O meu único erro foi confinar-me exclusivamente às árvores daquele que me parecia ser o lado iluminado do jardim, e rejeitar o outro lado, por causa da sua sombra e obscuridade. Fracasso, desgraça, pobreza, dor, desespero, sofrimento, lágrimas mesmo, as palavras entrecortadas que provêm dos lábios da mágoa, os remorsos que fazem andar sobre espinhos, a consciência que condena, a auto-humilhação que castiga, a miséria que cobre a cabeça de cinzas, a angústia que escolhe a bebida – tudo isto eram coisas que eu temia. E, tendo decidido não conhecer nada acerca delas, fui forçado a provar cada uma delas por sua vez, a alimentar-me delas, a não ter, durante um certo período, nenhum outro alimento.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

A Dor é para a Alma bela

Agora, parece-me que a única explicação possível para a extraordinária quantidade de sofrimento que há no mundo é o amor, qualquer que ele seja. Não sou capaz de conceber outra explicação. Estou convencido de que não há nenhuma outra, e de que, se os mundos foram de facto, como eu disse, construídos pela Dor, foram-no pelas mãos do Amor, pois a Alma do homem, para quem foram construídos os mundos, não poderia, de nenhuma outra maneira, atingir a inteira estatura da sua perfeição. O Prazer é para o corpo belo, mas a Dor é para a Alma bela.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

Quem compreendeu o que é a verdade amou-a

Quem compreendeu o que é a verdade amou-a. Procurou e escavou. Desejou-a para si e para os outros, porque não há outra luz. Depois sofreu por ela, porque em toda a volta a mentira é poderosa. E continuou, sem se calar, com esse amor e a sua dor.
(Paulo Geraldo)

O segredo da vida é o sofrimento

Não há um único homem miserável, neste lugar miserável onde eu também me encontro, que não tenha relações simbólicas com o próprio segredo da vida. Pois o segredo da vida é o sofrimento. É isso que está escondido por trás de tudo. Quando começamos a viver, o que é doce é tão doce para nós, e aquilo que é amargo, tão amargo, que dirigimos, inevitavelmente, todos os nossos desejos para o prazer, e procuramos, não apenas “durante um mês ou dois alimentar-nos de mel”, mas não experimentar, durante toda a nossa vida, nenhum outro alimento, ignorando entretanto que podemos estar a fazer com que a alma morra de fome.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

Absorver na minha natureza tudo aquilo que me fizeram

O que é importante, o que permanece diante de mim, aquilo que eu tenho que fazer, a não ser que queira permanecer, durante os poucos dias que me restam, estropiado, desfigurado e incompleto, é absorver na minha natureza tudo aquilo que me fizeram, fazer disso uma parte de mim, aceitá-lo sem queixas, medo ou relutância. É bom tudo o que se realiza.
(Oscar Wilde, in De Profundis)

Se ele me achasse indigno, incapaz de chorar com ele

Se, depois de eu sair [da prisão], um amigo meu desse uma festa e não me convidasse, eu não me importaria nada. Sou perfeitamente capaz de ser feliz sozinho. Tendo liberdade, livros, flores, e a lua, quem poderia não ser feliz? Além disso, já não estou muito para festas. Já avancei demasiado para me preocupar com elas. Esse lado da vida acabou para mim, e atrevo-me a dizer que ainda bem. Mas depois de eu sair, um amigo meu tivesse uma dor, e se recusasse a permitir-me partilhá-la com ele, senti-lo-ia com muita amargura. Se ele me fechasse na cara as portas da casa do luto, eu voltaria uma vez e outra e pediria para ser admitido, para poder partilhar aquilo que tinha o direito de partilhar. Se ele me achasse indigno, incapaz de chorar com ele, senti-lo-ia como a mais pungente humilhação, como o mais terrível modo de a desgraça me ser infligida. Mas isso nunca aconteceria. Eu tenho o direito de partilhar a Dor, e aquele que é capaz de olhar para os encantos do mundo, e partilhar a sua dor, e compreender um pouco a maravilha de ambos, está em contacto directo com as coisas divinas, e chegou tão perto do segredo de Deus quanto alguém pode estar.
(Oscar Wilde, in De Profundis)