Bem sei que a tensão permanente é impossível; que nem os génios o são vinte e quatro horas por dia; que com frequência precisamos “descansar de viver”, como dizia o poeta. Mas interrogo-me se esses descansos transitórios não se converterão para muitos em lei de vida, e se esta não se torna assim uma sesta interminável. Numa palavra, interrogo-me se não acabamos todos ou quase todos por sermos espantalhos em vez de seres humanos.
De que mediocridade estou falando? Da mediocridade daqueles que não são bons nem maus; daqueles que mais se limitam a sobreviver que a viver; daqueles que não têm ilusões, nem esperanças e nunca aspiram a melhorar; de todos aqueles que abaixam o que é elevado e preferem rastejar a escalar; daqueles que desprezam tudo o que não está ao seu alcance e investem – como dizia Machado – contra tudo o que não entendem; dos que intelectualmente se alimentam de lugares comuns e nunca saem deles; dos que só dizem inutilidades; de todos aqueles que vivem desalentados porque se entregaram à rotina.

(José Luis Martin Descalzo)